Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino reflete sobre a tragédia ocorrida em Itumbiara e o impacto humano que vai além da notícia. Em meio à dor irreparável, ele destaca a imagem de um pai que, mesmo devastado, permaneceu ao lado da filha, transformando a própria dor em abrigo e simbolizando a força silenciosa da paternidade diante do colapso.
Confiram:
Há tragédias que não chegam como notícia. Chegam como sentença. Não atravessam apenas uma casa. Atravessam a lógica. Atravessam a fé. Atravessam a própria ideia de futuro. A tragédia de Itumbiara é dessas. Não é um fato. É um golpe na alma coletiva. E, diante de um golpe assim, o ser humano costuma procurar explicações como quem procura ar. Mas há dores que não têm explicação. Há dores que apenas existem, como um abismo aberto no meio do caminho.
Foi por isso que, entre tantas imagens dolorosas, uma delas se destacou com força silenciosa, quase sagrada: a imagem de um pai. Um pai que não se fez de forte. Um pai que não se fez de pedra. Um pai que não se fez de personagem. Um pai que apenas permaneceu. E permanecer, nesses dias, é um ato tão raro, tão alto, tão humano, que comove mais do que qualquer palavra. Confesso que, diante do que vi, me veio à memória uma frase antiga, dessas que não se aprendem em livros, mas na vida.
Eu tive um tio-avô, o saudoso Antônio Florentino da Fonseca. Homem de pouco estudo, quase nenhum. Mas de uma sabedoria que não pedia licença. Sabedoria bruta, limpa, nascida do sol, do chão e do tempo. Lidava com compra e venda de gado. Andava em comitiva. Conhecia o mundo pelo pó das estradas e pelo peso das responsabilidades. Tinha mãos calejadas, deformadas de tanto amarrar corda, puxar carga, atravessar dias longos entre chuva e calor. E, com aquele linguajar simples, sem recurso, ele dizia uma frase que eu nunca esqueci: “Meu filho, o homem só tem vergonha até constituir família. Depois, tudo pode bater na sua porta.”
Na época, eu entendia pela metade. Hoje, entendo por inteiro. Porque ele não falava de falta de pudor. Falava de uma coisa maior: do momento em que o homem deixa de viver apenas para si e passa a ser suporte. Depois que se constitui família, tudo pode bater na porta. Tudo. E quando bate, não se escolhe. Não se negocia. Não se adia. A gente apenas precisa estar de pé. E foi isso que vi em Itumbiara.
Ali não havia apenas luto. Havia ruína. Havia uma filha atravessada por um tipo de dor que desorganiza o espírito. A dor que não se chora apenas. A dor que arranca a identidade. Uma mãe que perde os filhos não perde somente duas vidas. Ela perde o sentido. Perde o chão. Perde o tempo. Perde a linguagem. Perde a própria noção de “amanhã”. E, como se isso não bastasse, a tragédia ainda trouxe consigo um segundo suplício: o tribunal.
O mundo, quando vê dor, raramente oferece silêncio. O mundo oferece julgamento. O mundo não pergunta “como você está?”. O mundo pergunta “de quem é a culpa?”. O mundo não acolhe. O mundo vasculha. O mundo não abraça. O mundo aponta.
E foi ali, exatamente ali, no lugar onde a vida já tinha sido brutal o suficiente, que aquele pai fez o que poucos homens são capazes de fazer: ele se tornou abrigo. Não abrigo de palavras. Abrigo de presença. Ele também estava destruído. Ele também estava esmagado. Ele também estava sem nome para a própria dor. Mas há homens que, quando o caos chega, não se permitem o luxo de cair. Não por orgulho. Não por dureza. Mas por amor. Porque sabem que, se eles caírem, a casa inteira desaba.
E ali, naquele cortejo que parecia caminhar dentro de um pesadelo, aquele pai se manteve de pé como quem sustenta algo maior do que a própria carne: sustentava a filha. Sustentava com o corpo. Com o olhar. Com a mão. Com o silêncio. Sustentava como quem diz, sem dizer: “Eu não posso desfazer o que aconteceu. Mas eu posso impedir que você se perca de si mesma.”
Isso é paternidade em estado puro. Não a paternidade das fotografias bonitas. Não a paternidade do domingo alegre. Não a paternidade da frase pronta. Mas a paternidade do dia escuro. A paternidade que se revela quando o mundo vira cinza. Aquele pai não tinha como apagar o horror. Não tinha como devolver à filha aquilo que foi arrancado. Então ele fez o único milagre possível no mundo real: ele não soltou a mão.
E há um peso simbólico nisso que talvez nem todo mundo perceba. Porque, quando um pai segura a mão de uma filha no pior dia da vida dela, ele não está segurando apenas a filha. Ele está segurando a humanidade. Ele está dizendo ao mundo que o mal não vencerá por completo. Que a tragédia não terá o direito de destruir tudo. Que, mesmo quando Deus parece distante, ainda existe um gesto de amor capaz de manter alguém vivo.
Há dores que enlouquecem. Há dores que empurram a mente para um lugar perigoso. Há dores que fazem o ser humano desejar desaparecer. E quem já viu uma mãe sepultar filhos sabe: naquele instante, não é apenas choro. É um coração tentando não se partir de vez. E foi ali que aquele pai fez o que os homens antigos sempre souberam, mesmo sem livros: quando a família é atingida, alguém precisa segurar a estrutura. Ele segurou. Com a dignidade de quem sangra por dentro, mas não transfere esse peso para quem já está esmagado. Com a nobreza de quem não tem como salvar, mas tem como acompanhar. Com a grandeza de quem não tem como curar, mas tem como permanecer.
Porque, em tempos como os nossos, permanecer virou virtude rara. Hoje, muita gente confunde amor com discurso. Confunde presença com postagem. Confunde solidariedade com opinião. Mas o amor verdadeiro… o amor verdadeiro não faz barulho. O amor verdadeiro fica. E aquele pai ficou. Ficou no enterro. Ficou no silêncio. Ficou no momento em que ninguém sabe o que dizer. Ficou quando qualquer outro teria desabado. E, por isso, o Brasil se comoveu.
Não apenas pela tragédia, que já seria suficiente para dilacerar qualquer coração. Mas porque, no meio do horror, o país viu uma cena que anda desaparecendo do mundo: um homem exercendo a paternidade como missão. Sem pose. Sem vaidade. Sem teatro. Sem discurso. Apenas sendo chão. Apenas sendo braço. Apenas sendo abrigo. E talvez seja esse o ponto mais profundo de tudo. A tragédia é irreparável. A perda é definitiva. O vazio será eterno.
Mas, naquele instante, quando tudo parecia perdido, um pai ensinou, com o próprio corpo, que a dor não precisa ser atravessada sozinha. E isso, por si só, já é uma forma de salvação. Itumbiara viu o impensável. Mas viu também algo raro: um pai transformando a própria dor em abrigo, para que a filha não morresse duas vezes.
Rivelino Liberalino


