Artigo do leitor: “Quando o maior risco não está no mercado, mas dentro de casa”

por Carlos Britto // 07 de janeiro de 2026 às 21:00

Foto: reprodução

Em seu novo artigo, o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, chama atenção para um detalhe referente à falência de empresas que quase ninguém percebe.

Confiram:

Há mais de trinta anos observo empresas. Vi muitas nascerem do nada, crescerem sob sacrifício extremo, prosperarem apesar do ambiente hostil e, não raras vezes, ruírem quando tudo parecia estar consolidado.

A experiência ensina uma verdade incômoda: empresas raramente morrem por falta de lucro. Muitas morrem por falta de sucessão.

Nenhuma empresa surge por acaso. Ela nasce com o legítimo objetivo do lucro, mas carrega uma função que transcende o balanço financeiro. É por meio dela que famílias se sustentam, que pais e mães levam dignidade à mesa, que histórias são construídas com o suor diário de quem trabalha. Uma empresa saudável não é apenas um CNPJ. É um organismo vivo, que impacta vidas muito além de seus sócios.

O sonho do empreendedor quase sempre é maior do que ele próprio. Quem constrói algo com as próprias mãos deseja, no íntimo, que aquilo sobreviva à sua ausência, atravesse gerações, preserve valores, nome e identidade.

Mas é exatamente aí que reside a fragilidade.

Os dados são implacáveis. A maioria dos empreendimentos brasileiros não ultrapassa os cinco primeiros anos. As empresas familiares enfrentam um desafio ainda mais delicado. Poucas sobrevivem ao afastamento, à aposentadoria ou ao falecimento de seu fundador. O que deveria ser continuidade transforma-se em ruptura. O que deveria ser celebração converte-se em conflito.

A empresa familiar possui virtudes inegáveis: confiança, proximidade, identidade, credibilidade. Mas carrega riscos profundos, silenciosos e frequentemente subestimados. Misturam-se afetos com decisões técnicas. Confunde-se herança com mérito, amor com poder. E o direito presumido, aquele que nasce da confusão entre comprometimento e privilégio, costuma ser o primeiro passo para a discórdia.

A cena se repete com assustadora regularidade.

O fundador, após décadas de trabalho, anuncia seu afastamento. Um filho, recém-saído de formação acadêmica sofisticada, deseja reformular tudo de maneira abrupta. Outro, distante da rotina do negócio, prefere vender e transformar o legado em renda imediata. Três visões. Três egos. Nenhuma estrutura.

O que deveria ser passagem de bastão transforma-se em campo de batalha. Reuniões intermináveis, acusações, ressentimentos. O patriarca adoece ao ver o esforço de uma vida ser dilacerado diante de seus olhos. Onde havia uma empresa, surge um processo judicial. Onde havia família, restam pessoas que só se comunicam por meio de advogados.

Não se trata apenas de falência empresarial. Trata-se de falência emocional, moral e relacional.

Grande parte dessas tragédias não nasce da má-fé, mas da ausência de planejamento estruturado. No Brasil, muitas empresas são constituídas de forma empírica e apressada. Transfere-se ao contador, profissional indispensável, mas com atribuições específicas, a missão de estruturar aquilo que envolve estratégia, poder, governança e futuro. Utiliza-se um contrato social genérico, padronizado pela Junta Comercial, como se fosse capaz de disciplinar conflitos complexos de família, patrimônio e sucessão.

Não é.

Poucos empresários sabem, de fato, o que é um acordo de sócios. Menos ainda compreendem sua relevância. Não se definem regras claras de entrada, permanência, gestão e, sobretudo, de saída. Falar em saída enquanto tudo vai bem parece desconfortável, quase um tabu. Mas é exatamente nesse momento que ela deve ser pensada.

Planejar sucessão não é pessimismo. É maturidade.

É preciso separar papéis com clareza. Ser filho não significa ser gestor. Ser herdeiro não implica, automaticamente, ser sócio ativo. Laços afetivos não substituem competência técnica nem governança estruturada.

Também é fundamental profissionalizar o diálogo. Em conflitos familiares empresariais, muitas vezes o primeiro passo não é a judicialização. Não se precisa de mais um soldado para a guerra. Precisa-se de alguém capaz de construir pontes, estabelecer critérios objetivos e trazer racionalidade a um ambiente contaminado pela emoção.

A empresa, em alguns casos, pode se reconstruir após uma ruptura. A família, quase nunca.

Empreender já é difícil. Empreender em um país que penaliza quem produz é mais difícil ainda. Permitir que tudo se perca por falta de diálogo, método e planejamento é desperdiçar uma vida inteira de trabalho.

Sucessão empresarial não é luxo nem sofisticação excessiva.

É responsabilidade. É consciência. É respeito ao legado. Porque, ao final, o maior patrimônio não é a empresa em si, mas aquilo que ela deveria preservar. E jamais destruir.

Rivelino Liberalino

Artigo do leitor: “Quando o maior risco não está no mercado, mas dentro de casa”

  1. Kleber disse:

    Texto para se refletir. Até parece que foi feito pro meu amigo influencer Ivan Almeida. Mais conhecido no mundo acadêmico como ” IA”…

  2. Rivelino Liberalino disse:

    Caro Kleber, supondo que este seja, de fato, o seu prenome e não apenas um pseudônimo circunstancial,

    Quando falta argumento, sobra ironia.
    E quando o conteúdo exige maturidade, a saída mais confortável é transformá-lo em piada elegante , não para esclarecê-lo, mas para neutralizá-lo.

    Seu comentário não dialoga com uma linha sequer do texto. Não enfrenta sucessão, não enfrenta conflito, não enfrenta responsabilidade. Limita-se a insinuar intenções, como quem prefere atacar o mensageiro para não encarar a mensagem.

    Essa postura revela mais do que pretende ocultar: a necessidade de mostrar sagacidade pública, fazendo graça intelectual, como forma de buscar validação social diante de um conteúdo que incomoda.

    Isso não é leitura crítica.
    É defesa psíquica bem-vestida.

    O artigo não foi escrito para alguém. Foi escrito sobre algo. Se alguém se reconhece ali, o texto não escolheu o leitor , o leitor é que foi alcançado.

    Textos superficiais passam ilesos.
    Textos maduros incomodam.

    E o incômodo, aqui, falou mais alto que a crítica.

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