Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino propõe uma reflexão profunda sobre a fragilidade da vida e a ilusão de controle que muitas vezes acompanha o sucesso, o dinheiro e o status. A partir da morte precoce do empresário Daniel Rocha e da condição de saúde do ator Bruce Willis, o autor convida o leitor a repensar prioridades, afetos e a forma como o tempo tem sido vivido na correria do cotidiano.
Confiram:
A morte não avisa.
Ela não manda recado.
Não respeita patrimônio, sucesso, fama, títulos, seguidores ou saldo bancário.
Ela simplesmente chega.
A despedida precoce de Daniel Rocha, aos 42 anos, não é apenas uma notícia triste. É um choque existencial. Um desses acontecimentos que interrompem o barulho cotidiano e nos obrigam a parar. Daniel era jovem, empresário bem-sucedido, pai, marido, alguém em plena vitalidade, com planos em curso e futuro em expansão. Em poucos dias, uma infecção silenciosa. Em poucos dias, o colapso. Em poucos dias, o fim. A vida, mais uma vez, mostrou que permanece submetida ao imponderável.
Quando alguém parte assim, tão cedo, a pergunta inevitável surge: o que estamos fazendo da nossa vida?
Em outro cenário, longe daqui, mas carregando a mesma lição, está Bruce Willis. O homem que o mundo aprendeu a ver como invencível. O herói de Hollywood. O ator que faturou fortunas, protagonizou clássicos, dominou telas e imaginários. Hoje, vive o silêncio. A afasia abriu caminho para a demência. A fala se foi. O reconhecimento se apaga. A presença se transforma em ausência. Cercado de cuidados, mas distante da própria consciência.
E então o paradoxo se impõe, sem piedade:
para que serve o dinheiro quando a vida se retira?
De que valem cifras quando não se pode reconhecer um rosto amado?
Que poder há no cofre quando a alma já não responde?
Vivemos como se o tempo fosse infinito. Como se a saúde fosse garantida. Como se sempre houvesse um depois. Trabalhamos até o limite, engolimos sapos diários, normalizamos ambientes adoecidos, adiamos afetos, sacrificamos o agora em nome de um futuro que pode nunca chegar. O mundo aplaude o desempenho. As redes celebram o sucesso. Mas a vida real cobra a conta sem aviso.
Daniel nos lembra da brevidade.
Bruce nos lembra da impermanência.
Ambos nos confrontam com a mesma verdade: ninguém está no controle.
Não se trata de demonizar o dinheiro. Ele é instrumento, não vilão. O erro está em transformá-lo em finalidade. O erro está em trocar presença por performance, vínculo por resultado, amor por agenda, saúde por status. A maior tragédia não é perder a fala. É perder o afeto. A pior pobreza não é a do bolso. É a do espírito.
Talvez a reflexão verdadeira não esteja em como evitamos a morte , porque isso não nos cabe , mas em como afirmamos a vida enquanto ela pulsa. Com quem dividimos nossos dias. A quem oferecemos tempo. Onde colocamos o corpo quando a alma pede descanso. O que escolhemos quando ninguém está olhando.
Hoje foi Daniel.
Hoje é Bruce.
Amanhã pode ser qualquer um de nós.
Que este texto não seja apenas lido.
Que seja sentido.
Antes que o dinheiro cale.
E a vida grite.
Rivelino Liberalino


