Artigo do Leitor: “Maria, mãe da dor que não tem nome”

por Carlos Britto // 01 de abril de 2026 às 20:30

Neste artigo, o colaborador Rivelino Liberalino, em parceria com Victoria Liberalino, propõe uma reflexão profunda sobre a dor da maternidade diante da perda de um filho, a partir da figura de Maria como símbolo humano de fé, entrega e permanência. O texto percorre sentimentos que não cabem em explicações, abordando o luto, a ausência e o amor que permanece, ao mesmo tempo em que apresenta Maria não apenas como devoção, mas como presença que acolhe, compreende e permanece ao lado de quem sofre.

Confiram:

Há dores que não cabem em palavra alguma. Talvez a maior de todas seja aquela que faz uma mãe enterrar um filho, porque ali não morre apenas quem parte. Alguma coisa dentro de quem fica também deixa de existir naquele dia.

Eu nunca consegui olhar para essa dor de fora. Sempre me inquietou, sempre me atravessou. Talvez porque, lá atrás, em 2007, eu tenha chegado perto demais de algo que poderia ter me colocado diante desse abismo. Não fui lançado nele, e reconheço: foi misericórdia. Porque há dores que eu sei, com humildade, que não suportaria carregar. Mas ainda assim eu vi, e aquilo permaneceu em mim.

Com o tempo, ao ouvir mães que perderam seus filhos, jovens, adultos, cheios de vida, percebi algo que não me abandona. O tempo não resolve essa dor. Ele não apaga, não reorganiza, não explica. No máximo, ensina a conviver com ela. E, às vezes, nem isso. Foi nesse lugar que Maria deixou de ser apenas devoção e passou a ser compreensão.

E antes que venham leituras apressadas ou críticas distantes, é preciso dizer com serenidade: aqui não se fala de uma figura inalcançável. Falo de Maria como pessoa, como mulher, como ser humano concreto, de carne, de afeto, de apego, de medo e de amor. Uma mulher que sentiu, que viveu a experiência humana em sua forma mais intensa e, ainda assim, carregou dentro de si uma missão que ultrapassa qualquer lógica.

Maria era humana. E talvez seja exatamente isso que torna tudo ainda mais avassalador. Porque essa mulher humana foi escolhida para gerar o que não é humano. Carregou no ventre o próprio Deus, deu colo a quem sustenta o universo, ensinou a andar Aquele que pisaria sobre a morte. Alimentou com as próprias mãos Aquele que seria o pão da vida. Não há nada mais desconcertante do que isso, uma mulher cuidando de Deus.

E essa história não começou na glória. Começou na vulnerabilidade, na exposição, na ausência de garantias. Maria não foi poupada em momento algum. Precisou fugir para proteger o Filho ainda pequeno, viu-o nascer sem estrutura, numa manjedoura, enfrentou o risco, a insegurança e o silêncio de quem acredita sem ter controle de nada. Foi uma vida de provas, de renúncias profundas e de uma fé que não exigia explicações.

E talvez uma das dimensões mais difíceis de compreender esteja aqui. Ela gerou, carregou, amou, e, ainda assim, sabia que não lhe pertencia. Que aquele Filho, que ela embalou, que ela protegeu, que ela ensinou, estava destinado ao mundo, à dor, à entrega.

Há uma forma de renúncia na maternidade de Maria que não cabe em palavras. Porque não é apenas perder. É saber, desde sempre, que um dia teria que entregar. Amar sabendo que não se possui. Cuidar sabendo que não se retém. Gerar e, ainda assim, não prender.

Talvez Maria, sem discursos, tenha ensinado algo que a maioria de nós leva uma vida inteira para compreender. Nenhum filho é nosso. Nós acolhemos, nós cuidamos, nós protegemos, mas não somos donos. São vidas que nos são confiadas por um tempo. São filhos do Altíssimo.

E talvez esteja aí uma das dores mais profundas da maternidade, amar com tudo e, ainda assim, saber que um dia será preciso soltar. Maria não apenas viveu isso. Ela levou essa verdade ao limite mais extremo. Não foi apenas a entrega da vida. Foi a entrega do próprio sentido. E, ainda assim, permaneceu.

“Faça-se em mim segundo a tua palavra.”

Isso não é apenas fé. É entrega. E essa entrega não ficou no começo. Foi sendo renovada todos os dias, no silêncio, na espera, na incerteza, até chegar ao momento em que toda promessa parece desabar.

Porque um dia Maria viu o Filho ser condenado, espancado, humilhado, crucificado e depois morto. E aquela mesma mulher que um dia embalou Deus nos braços recebeu esse mesmo Deus, sem vida, no colo. Não há explicação que alcance isso. Só resta o silêncio.

Que tipo de fé continua depois disso. Talvez não seja a fé que entende. Talvez seja a fé que permanece.

E mesmo depois, depois da cruz, depois da ausência, depois da ascensão, permaneceu o coração de mãe. Porque há algo que nem o céu retira, o vínculo. Ninguém deixa de ser mãe. Ninguém deixa de amar. Ninguém deixa de sentir. A eternidade pode acolher o Filho, mas o coração que gerou continua aqui, sentindo.

Por isso, quando uma mãe perde um filho, não há o que explicar. Qualquer resposta se torna pequena diante de uma dor tão grande. Mas há um lugar onde essa dor pode ser acolhida. Em Maria. Porque ela não fala demais, não corrige o irreparável, não diminui a dor. Ela reconhece, se aproxima, senta ao lado e fica.

E talvez seja isso que mais falte ao mundo hoje, gente que não tenta resolver a dor do outro, mas que tem coragem de permanecer nela. Eu penso nas mães que seguem vivendo com um pedaço do coração ausente, nas que acordam e lembram, nas que evitam certos lugares, nas que abraçam lembranças como se ainda houvesse presença.

E, no fundo, há. Porque o amor não morre. Ele muda de lugar. Maria sabe disso, porque viu a morte, mas também viu o que veio depois. Viu o Filho partir e viu o Filho viver outra vez. E talvez seja isso que sustente o impossível, a morte não tem a última palavra.

Quando a morte chega, o que mais assusta não é só a perda. É a sensação de interrupção. Como se a história tivesse sido arrancada do meio. Como se o amor tivesse sido obrigado a parar. E o coração não aceita isso.

Por isso é preciso dizer com cuidado. A morte não encerra tudo. Ela impõe distância, interrompe o toque, rompe a presença, desorganiza a vida, mas não apaga o que foi vivido. E isso não consola como se gostaria. O abraço não volta. A saudade não se cala. O vazio permanece.

A dor continua ali, inteira, viva. Só que a ausência já não é exatamente aquilo que parecia. Porque um filho não se perde. Não desaparece. É acolhido, guardado, amparado de um jeito que a gente não alcança, mas sente.

Não há forma certa de atravessar uma dor dessas. O que existe é esse amor que permanece. E que, de algum modo, continua ali. E talvez seja nesse lugar que Maria se faz presença. Não para tirar a dor, mas para sustentar quem permanece. Para estar quando ninguém mais sabe o que dizer. Para permanecer quando o mundo segue. Para chorar junto.

E, quando faltar força até para acreditar, ela permanece ali, em silêncio. Talvez fé seja isso. Não entender, mas não estar só.

E Maria não abandona uma mãe. Nunca abandona.

Que ela alcance cada coração ferido. Que entre onde ninguém mais consegue entrar. Que sustente o que parece impossível. E que, mesmo na noite mais escura, ainda seja possível respirar.

Porque há dores que não passam. Mas há presenças que impedem a queda. E, às vezes, isso é o que mantém alguém de pé.

Rivelino Liberalino/ Victoria Liberalino

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