Em seu novo artigo, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino aborda a proibição das Bets no Brasil e questiona o momento em que a medida foi adotada, destacando os impactos e os relatos de famílias afetadas pelo vício em jogos. No texto, ele defende o fim das apostas, mas critica o que considera “uma utilização política” do sofrimento causado pela ludopatia.
Confira:
Quero começar deixando uma coisa absolutamente clara, porque não admito que confundam aquilo que venho defendendo há anos com qualquer tentativa de proteger esse mercado: eu quero o fim das bets no Brasil. Não quero regulamentação mais rigorosa, não quero aperfeiçoamento desse sistema, não quero apenas retirar as clandestinas para deixar funcionando aquelas que receberam autorização estatal. Quero que acabem. Todas. E não descobri os males do jogo ontem, muito menos às vésperas de uma eleição. Há anos escrevo, falo e denuncio essa tragédia, mas existe uma diferença enorme entre conhecer a ludopatia pelas estatísticas e conhecê-la olhando nos olhos de quem perdeu quase tudo. Eu conheço essa dor. Aqui mesmo, no Vale do São Francisco, tomamos conhecimento de histórias terríveis, inclusive envolvendo pessoas jovens, relatos de suicídios e tentativas em contextos marcados pelo desespero do jogo. São acontecimentos que não cabem numa planilha, porque uma coisa é dizer que alguém perdeu dinheiro apostando; outra é ouvir uma mãe, uma esposa, um irmão ou um filho tentando entender como alguém que tinha trabalho, família, projetos e sonhos foi sendo tragado até já não enxergar saída.
E não se enganem: a ludopatia não pergunta quanto você ganha antes de entrar na sua casa. Não escolhe profissão, diploma, sobrenome ou classe social. Evidentemente, os mais pobres são atingidos com crueldade ainda maior, porque têm menos reservas e porque a promessa do dinheiro fácil encontra terreno especialmente perverso onde existe necessidade. É sobre essa vulnerabilidade que atua uma indústria bilionária, com um marketing poderosíssimo, onipresente, que vende a ilusão de ganho enquanto silencia sobre a multidão que perde. Mas quem imagina que isso acontece apenas na periferia desconhece completamente a doença. O jogo entra na casa do empresário, do servidor público, do profissional liberal, do trabalhador com bom salário. Tenho acompanhado histórias de empregados que perderam seus postos depois de, já mergulhados na compulsão e nas dívidas, atravessarem limites que talvez jamais imaginassem atravessar. Não estou justificando ato de desonestidade. Quem pratica um ilícito responde por ele. Estou falando da desintegração humana que uma dependência pode produzir: começa-se apostando parte da renda, depois vem cartão, empréstimo, patrimônio, mentira, desespero e, em alguns casos, o fundo do poço.
Quem achar exagero não precisa acreditar em mim. Procure profissionais de saúde mental, procure o CVV, converse com as famílias e, principalmente, tenha a coragem de trocar a discussão abstrata pela realidade. Aqui em Petrolina existe o Jogadores Anônimos. Vá numa sexta-feira, às 19h30, à Casa dos Doze Passos. Sente-se numa cadeira. Não vá fotografar, julgar ou produzir conteúdo. Vá apenas ouvir. Ouça quem perdeu economias, quem perdeu a confiança da família, quem viu sonhos construídos durante anos desaparecerem, quem precisou confessar aquilo que vinha escondendo, quem acreditou que recuperaria na próxima aposta aquilo que perdera na anterior e acabou cavando um buraco cada vez maior. Ouça o silêncio daquela sala. Ouça o choro. Ouça o soluço. Depois volte para casa e tente chamar isso simplesmente de entretenimento.
É dessa realidade que falo. E talvez seja por conhecê-la tão de perto que me cause tamanha inquietação assistir ao presidente Lula descobrir agora que as bets são um “câncer” que precisa ser extirpado. Se é câncer hoje, presidente, quando começou a doença? Em setembro de 2026? Nove dias antes da eleição? Ou esse câncer já corroía famílias enquanto o próprio Estado regulamentava, autorizava e arrecadava com esse mercado? Porque a história precisa ser contada inteira, inclusive quando ela incomoda.
Em 2018, no governo Michel Temer, a Lei nº 13.756 criou a modalidade de aposta de quota fixa. Em 2023, já no governo Lula, veio um capítulo decisivo. Durante a tramitação da regulamentação, o Senado teve a oportunidade concreta de retirar do projeto os jogos on-line. A emenda foi aprovada por 37 votos a 27. O então líder do governo Lula no Senado, Jaques Wagner, orientou contra essa retirada. Mesmo assim, o Senado excluiu os jogos on-line. Quando o projeto retornou à Câmara, a exclusão caiu: por 261 votos contra 120, os jogos on-line permaneceram no texto posteriormente sancionado. Isso não é minha opinião, não é narrativa política e não depende de gostar ou não de Lula. É história legislativa registrada pelo Congresso.
Depois veio a sanção. Vieram as normas administrativas, as autorizações e as outorgas. O Estado não ficou do lado de fora assistindo ao mercado crescer. Regulamentou, estabeleceu condições, fiscalizou e cobrou. Cada autorização custava R$ 30 milhões. Em 2026 havia 85 empresas habilitadas. Estamos falando de R$ 2,55 bilhões apenas em outorgas. Em 24 de setembro, a relação dessas empresas continuava oficialmente publicada. No dia seguinte, 25 de setembro, Lula assinou medida provisória proibindo exploração, oferta, intermediação e publicidade das bets. De um dia para o outro, aquilo que o Estado regulamentara, autorizara e do qual arrecadara passou a ser tratado como algo que precisava desaparecer. E tudo isso aconteceu a nove dias da eleição.
É aí que minha inquietação se transforma em indignação. O que surgiu agora que não existia antes? A ludopatia nasceu em setembro? As famílias começaram a se endividar agora? Os casamentos começaram a desmoronar agora? As pessoas começaram agora a perder patrimônio, emprego, confiança e dignidade? Não. A dor já estava aqui. Nós já estávamos vendo. Eu já estava escrevendo. Famílias já estavam chorando. Neste próprio Blog do Carlos Britto publiquei, antes dessa medida, um artigo cujo título dizia aquilo que continuo sustentando: “O vício em jogos não rouba apenas dinheiro. Rouba famílias, histórias e vidas.” Não escrevi aquilo por causa de eleição. Escrevi porque estava vendo sofrimento.
Por isso, diante dessa súbita conversão, a pergunta é inevitável: por que agora? Estamos diante de uma mudança genuína de convicção ou de uma medida cujo momento produz evidente repercussão eleitoral? Não preciso entrar na cabeça do presidente para fazer essa pergunta. Basta colocar a cronologia sobre a mesa. Em 2023, o governo orientou contra a retirada dos jogos on-line no Senado. O Senado os retirou. A Câmara os recolocou. Lula sancionou. O governo regulamentou. O Ministério da Fazenda autorizou. O Estado recebeu as outorgas. Em 2026 havia 85 empresas habilitadas. E, a nove dias da eleição, veio a proibição. Não preciso acrescentar adjetivos. A cronologia é suficientemente incômoda.
E não me venham dizer que fazer essa crítica significa defender bet. Quero exatamente o contrário. Quero que desapareçam. Não quero bet clandestina, autorizada, pagando imposto ou patrocinando clube de futebol. Não quero cassino funcionando vinte e quatro horas por dia dentro do bolso das pessoas. Mas também não quero que a tragédia dessas famílias seja descoberta apenas quando adquire valor político. Quero saber o que acontecerá depois da eleição, quando as urnas forem fechadas, as câmeras forem embora e essa manchete já não produzir o mesmo efeito. Medida provisória tem eficácia imediata, mas depende do Congresso para sua conversão definitiva em lei. É aí que veremos se estamos diante de uma política que pretende permanecer ou de um grande gesto produzido no calor da disputa eleitoral.
Porque, enquanto Brasília conta votos, há famílias contando dívidas. Enquanto políticos medem popularidade, há mães contando noites sem dormir. Enquanto se calcula repercussão eleitoral, há gente tentando recuperar uma confiança que levou uma vida para construir e poucos meses para destruir. E na sexta-feira seguinte à eleição haverá novamente reunião do Jogadores Anônimos em Petrolina. Haverá alguém entrando naquela sala talvez pela primeira vez, envergonhado, endividado, sem saber como contar à família o que fez. Talvez haja alguém tentando simplesmente atravessar mais vinte e quatro horas sem apostar. Ninguém ali estará pensando em pesquisa eleitoral. Estará tentando reconstruir a própria vida.
É por isso que não consigo olhar para essa história com a frieza de quem descobriu ontem que o jogo destrói. Eu já estava vendo. Já estava ouvindo. Já estava escrevendo. E continuarei fazendo isso quando essa discussão deixar de ser eleitoralmente interessante, porque a dor de uma mãe não é santinho eleitoral, a ruína de um trabalhador não é slogan de campanha, o choro de uma esposa não é cenário para fotografia e uma vida destruída jamais poderá ser reduzida a dividendo político.
Quem quiser compreender, vá ouvir as famílias. Procure o CVV. Procure profissionais que tratam dependência. Vá ao Jogadores Anônimos. Sente-se e escute. Talvez depois de ouvir alguém contar que perdeu dinheiro, patrimônio, confiança, casamento, sonhos e quase perdeu a própria vida seja possível compreender que esta discussão nunca foi apenas sobre bilhões, impostos ou futebol. É sobre gente.
Eu não descobri essa causa em setembro de 2026. Eu já estava aqui antes da medida provisória, antes da campanha chegar a esse ponto, falando, escrevendo, denunciando e vendo gente sofrer. E estarei aqui depois das urnas, porque para algumas pessoas essa discussão pode ter se tornado urgente quando passou a produzir dividendos políticos. Para muitas famílias, porém, ela começou muito antes, quando o jogo entrou silenciosamente dentro de casa e começou a levar tudo.
Por isso, proíbam as bets. Proíbam todas. E façam essa proibição sobreviver às urnas, ao Congresso, aos tribunais, às manchetes e ao calendário político. Porque somente depois que passar a eleição saberemos a verdadeira dimensão e a permanência dessa decisão.
Até lá, fica uma pergunta que nenhuma propaganda consegue apagar:
se essa tragédia já estava diante dos nossos olhos havia tanto tempo, por que somente agora?
E uma súplica que nasce de quem conhece de perto essa dor:
não transformem as lágrimas dessas famílias em votos.
Rivelino Liberalino


