Neste novo artigo, o colaborador Rivelino Liberalino volta no tempo para relembrar o reencontro da primeira turma de Administração da Facape formada no turno da manhã, no ano de 1995.
Confiram:
No pretérito sábado, tive o privilégio de participar de um reencontro muito especial: a celebração dos 31 anos da primeira turma de Administração da Facape no turno da manhã. Foi aquela turma que inaugurou o curso naquele horário e abriu um caminho que, depois, seria percorrido por tantos outros estudantes.
Cheguei ali por uma via oblíqua, como costumo brincar. Não fui aluno daquela turma. Fui na condição de marido de Edneide, que fez parte dessa história. Mas bastaram os primeiros abraços e as primeiras lembranças para que eu deixasse de me sentir apenas um acompanhante e passasse a me sentir parte daquele reencontro.
A história de minha esposa na faculdade precisou dividir espaço com a vida real. Havia o trabalho, o nosso casamento ainda muito jovens, aos 22 anos, a maternidade que chegou pouco depois, os cuidados com a casa e as responsabilidades de uma família que começava a ser construída. A vida não lhe ofereceu tempo livre nem condições ideais. Ela precisou fazer o sonho caber na rotina.
Mudou de turno, conciliou horários, adiou algumas coisas e seguiu adiante. Chegou lá.
Talvez por conhecer de perto o preço daquela caminhada tenha sido tão bonito vê-la reencontrar a turma. Ao olhar para Edneide, eu não via apenas a mulher com quem construí minha vida. Via também aquela jovem que, em meio a tantas obrigações, não desistiu de estudar e de seguir seu caminho.
O que encontrei naquele reencontro me tocou profundamente.
Encontrei homens e mulheres maduros, inteiros e muito mais donos de si. Pessoas que já não precisavam representar personagens para transitar socialmente. Ninguém parecia interessado em competir, impressionar ou provar coisa alguma. Cada um chegou com aquilo que a vida fez de si e, sobretudo, com a serenidade de quem já não precisa esconder as próprias marcas.
Que coisa bonita é quando o tempo consegue fazer isso conosco.
As conversas já não giravam em torno de quem chegou primeiro, quem conquistou mais ou quem foi mais longe. Falava-se de filhos, família, trabalho, perdas, vitórias e superações. Falou-se também de menopausa. Sim, até ela entrou na roda, com a naturalidade e o bom humor de quem aprendeu que envelhecer pode ser vivido sem vergonha e, muitas vezes, com boas risadas.
Ali também não houve tempo para política. Os smartphones perderam a importância e o Instagram pôde esperar. Ninguém parecia preocupado em registrar cada instante para provar depois que havia estado lá. Todos estavam ali de verdade.
Em uma época em que tantas pessoas ocupam a mesma mesa com os olhos presos a telas diferentes, aquele grupo escolheu olhar nos olhos. Ouviu, riu, contou histórias, abraçou e se deixou abraçar. Cada pessoa viveu o momento por inteiro.
Foi divino no sentido mais simples da palavra. Foi pleno porque todos estavam inteiros. Foi maravilhoso simplesmente estar ali.
Ali estavam senhores e senhoras, todos muito belos. Cada idade possui uma beleza que lhe pertence. A juventude tem o brilho da descoberta. A maturidade traz outra beleza: a de quem já caiu, levantou, perdeu, ganhou, chorou, recomeçou e aprendeu a não levar a si próprio tão a sério.
O tempo havia passado por todos nós. Seria impossível que não passasse. Mas ele não deixou apenas rugas, cabelos brancos ou mudanças no corpo. Deixou histórias.
Alguns eu já conhecia de outras estradas da vida. Eram amigos de infância, amigos de irmãos, contemporâneos do Dom Bosco e pessoas que a vida havia cruzado comigo antes ou depois daquela turma. Outros conheci melhor naquele dia.
Foi maravilhoso ver a alegria circulando pela casa, ouvir as pessoas se atualizando umas das outras e recordar episódios que somente ganham sentido quando alguém pergunta:
“Você ainda se lembra?”
Em meio a tanta alegria, também houve espaço para a saudade. Uma colega que já cumpriu o seu ciclo nesta vida foi lembrada com carinho. Embora não estivesse fisicamente entre nós, continuava presente na história, na memória e no afeto do grupo.
Outros colegas, por diferentes razões, não puderam estar ali. A maturidade ensina que o carinho também sabe respeitar ausências. Cada pessoa enfrenta lutas muito próprias, quase sempre desconhecidas pelos demais, e vive o seu tempo e o seu processo. Por isso, o reencontro acolheu quem chegou e guardou, com o mesmo afeto, todos os que fazem parte daquela história.
Todo reencontro começa com alguém que toma a iniciativa e se recusa a deixar aquela vontade apenas no campo da saudade. Alguém dá o primeiro passo, procura os colegas, insiste, anima e transforma a ideia em data, hora e lugar. A quem tomou essa iniciativa, deixamos nosso carinho e nossa gratidão.
Outras pessoas se somaram e ajudaram a organizar ou viabilizar o encontro. Alguns colegas vieram de diferentes cidades país, reorganizaram compromissos e venceram distâncias para estar presentes. Cada gesto teve importância. A presença de cada um dizia, sem precisar de discurso, que aquela história ainda merecia ser celebrada.
Antes de qualquer outra coisa, é preciso agradecer a Olegário e à sua esposa. Eles abriram não apenas as portas de sua casa, mas também os braços e o coração. Receberam cada pessoa com uma generosidade tão natural que todos puderam se sentir verdadeiramente em casa, como se aquele lar também fosse um pouco seu. Agradecemos, de coração, todo o carinho com que fomos acolhidos.
Na organização, Olegário mostrou que continua sendo um grande gestor, tendo ao seu lado uma grande parceira em cada cuidado. Houve boa música, comida em demasia, serviço impecável, garçons atenciosos e uma atenção constante para que nada faltasse e todos se sentissem bem.
Houve apenas uma pequena falha na gestão.
Segundo informações absolutamente não confirmadas, provenientes de fonte altamente suspeita, no caso, eu mesmo, Olegário teria recorrido a uma antiga técnica de administração patrimonial: secar a piscina para impedir que alguém inventasse de tomar banho.
Antes que ele exerça o direito de resposta, esclareço: é brincadeira. Conhecendo o anfitrião, sei que jamais faria isso. É apenas o espírito de criança que, graças a Deus, de vez em quando ainda escapa da vigilância da idade.
Talvez tenha sido justamente isso que mais me encantou naquela tarde: perceber que amadurecemos sem precisar matar a criança que ainda vive em nós.
Foi uma tarde mágica, daquelas em que o relógio continua andando, mas a pressa desaparece. Por algumas horas, ninguém correu atrás do tempo. Todos simplesmente o viveram.
Saí do encontro pensando na vida. Ela é um breve trecho da eternidade que nos foi concedido para amar, construir, errar, aprender, perdoar, recomeçar e encontrar pessoas pelo caminho. E talvez sejam esses encontros, no fim das contas, o que verdadeiramente levamos conosco.
Daqui a alguns anos, ninguém se lembrará da roupa que vestíamos, do carro em que chegamos, dos cargos que ocupamos ou das coisas que um dia julgamos tão importantes. Mas nos lembraremos de como fomos recebidos, das histórias que ouvimos, das risadas que compartilhamos e de como nos sentimos.
E naquela tarde nós nos sentimos felizes.
Somos muito gratos a cada um de vocês pela acolhida, pelas conversas, pelas histórias, pelas risadas, pela confiança das partilhas e pela oportunidade de testemunhar que o tempo não serve apenas para envelhecer as pessoas. Quando bem vivido, ele também nos despe das vaidades, suaviza as arestas e nos devolve ao essencial.
Não encontrei apenas uma turma formada há 31 anos. Encontrei vidas que seguiram por caminhos diferentes, mas que continuavam ligadas pelo mesmo começo. Encontrei histórias que sobreviveram ao tempo e pessoas que, depois de tantas alegrias, dores, perdas e conquistas, puderam sentar-se juntas novamente, olhar umas para as outras e reconhecer, mesmo sem dizer: “Nós chegamos até aqui.”
Não chegamos intactos, porque ninguém atravessa 31 anos sem carregar marcas. Chegamos mais conscientes do que importa, mais livres para sermos quem somos e mais agradecidos pela vida que nos trouxe de volta àquela mesa.
E isso, meus amigos, é uma extraordinária razão para celebrar.
Muito obrigado a todos vocês.
Amamos tudo: a forma como fomos recebidos, a música, a mesa farta, as conversas, as lembranças, as brincadeiras e cada abraço. Amamos, principalmente, a verdade daquele encontro e a liberdade de cada pessoa poder ser exatamente quem é.
Voltamos para casa com uma saudade boa do que tínhamos acabado de viver. Foi uma tarde inesquecível. Daquelas que não terminam quando a gente vai embora. Continuam dentro da gente.
Rivelino Liberalino


