Artigo do leitor: ” O vício em jogos não rouba apenas dinheiro. Rouba Famílias, histórias e vidas”

por Antonio Carlos Miranda // 07 de agosto de 2026 às 21:08

Foto: Pixabay/reprodução

A ‘febre’ das apostas online no Brasil e no mundo levou o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, a uma reflexão pertinente por meio deste novo artigo. Confiram:

Existem tragédias que chegam fazendo barulho. Elas quebram portas, anunciam sua presença, deixam marcas visíveis. Mas existem outras que caminham descalças. Entram pela sala de estar sem pedir licença, sentam-se à mesa da família, ocupam silenciosamente o lugar da confiança e, quando finalmente são percebidas, já transformaram uma vida inteira em ruínas.

A ludopatia é assim.

Ela não tem cheiro de álcool. Não deixa os olhos avermelhados pelo uso de drogas. Não provoca a fala desconexa nem faz o corpo cambalear pelas ruas. Pelo contrário. Muitas vezes veste terno, usa gravata, dirige um bom automóvel, participa das reuniões da empresa, frequenta a igreja aos domingos, abraça os filhos antes de dormir e sorri para os vizinhos como se nada estivesse acontecendo.

E justamente por isso ela é tão devastadora.

Imagine aquele homem que você sempre admirou. Um pai dedicado, um profissional respeitado, alguém que passou décadas acordando antes do amanhecer para construir patrimônio, comprar a casa própria, formar uma pequena poupança, garantir os estudos dos filhos e proporcionar tranquilidade à esposa. Imagine uma mulher equilibrada, organizada, prudente, que sempre foi o porto seguro da família. Pessoas que nunca despertaram qualquer desconfiança.

Agora imagine descobrir, de um único golpe, que não existe mais poupança, que os cartões estão estourados, que empréstimos foram feitos às escondidas, que existem dívidas impagáveis, cobranças diárias, ameaças de agiotas e um patrimônio inteiro comprometido.

A sensação é de que o chão desaparece sob os pés.

Porque, na maioria das vezes, o dinheiro nem sequer é a maior perda.

O que verdadeiramente desmorona é a confiança.

Aquela certeza de que conhecíamos quem dividia conosco a mesma casa. A segurança de acreditar que nossos projetos estavam sendo construídos lado a lado. A convicção de que o futuro estava protegido. Tudo isso pode desaparecer quando a compulsão assume o comando da vida de alguém.

A ludopatia talvez seja uma das doenças mais cruéis exatamente porque consegue esconder-se atrás da aparência de normalidade. Enquanto o alcoólico pode chegar em casa embriagado, enquanto outras dependências deixam sinais visíveis, o jogador compulsivo frequentemente retorna para casa exatamente como saiu: bem vestido, aparentemente tranquilo, dizendo que apenas trabalhou um pouco mais naquele dia. Ninguém percebe que, durante horas, ele travou uma guerra silenciosa contra uma doença que insiste em convencê-lo de que a próxima aposta resolverá todos os problemas criados pela anterior.

Nunca resolve.

Ela apenas aprofunda o abismo.

É o motorista de aplicativo que trabalha quinze horas por dia e, mesmo assim, não consegue levar dinheiro para casa, porque parte de cada corrida desaparece nas apostas. É o pequeno empresário que desvia recursos da própria empresa acreditando que recuperará tudo na próxima partida. É o servidor público que compromete o salário do mês seguinte. É o aposentado que perde a reserva construída ao longo de uma vida inteira. É o jovem que começa apostando pequenas quantias e, quando percebe, já perdeu muito mais do que dinheiro: perdeu a paz, a autoestima e a esperança.

A ludopatia não escolhe vítimas.

Ela não pergunta qual é sua profissão, sua religião, sua escolaridade ou sua condição financeira. Ela alcança médicos, advogados, professores, engenheiros, comerciantes, donas de casa, universitários e trabalhadores simples. A doença não faz distinção entre ricos e pobres, porque sua matéria-prima não é a pobreza. É a compulsão.

E compulsão não é falta de caráter.

É doença.

Uma doença reconhecida pela medicina, mas ainda profundamente incompreendida pela sociedade.

Quem um dia tiver a oportunidade de sentar-se em uma reunião dos Jogadores Anônimos talvez nunca mais consiga olhar para esse tema da mesma forma. Ali não existem fracassados. Existem seres humanos profundamente machucados, contando histórias que fariam qualquer coração endurecido se emocionar. São pais que perderam o respeito dos filhos, casamentos desfeitos, patrimônios destruídos, carreiras interrompidas e famílias inteiras tentando sobreviver aos escombros deixados por uma compulsão que começou, quase sempre, com uma aposta aparentemente inocente.

Não adoece apenas quem joga.

Adoece quem espera.

Adoece quem ama.

Adoece quem tenta esconder dos filhos as ligações de cobrança, quem precisa negociar dívidas, vender patrimônio, enfrentar ameaças, reorganizar uma casa que já não reconhece. O cuidador também precisa de ajuda. Também precisa ser ouvido. Também precisa reaprender a viver. Porque ninguém atravessa sozinho uma tempestade dessa dimensão sem carregar cicatrizes.

Algumas pessoas precisarão de internação. Outras necessitarão de acompanhamento psiquiátrico, psicológico e espiritual. Em determinados casos, medidas jurídicas de proteção patrimonial poderão ser indispensáveis para impedir que a doença destrua completamente a vida daquele que já perdeu a capacidade de decidir de forma segura sobre seus próprios atos.

Ainda assim, ninguém pode prometer cura.

O que existe é tratamento.

Existe honestidade.

Existe vigilância.

Existe humildade para reconhecer a própria impotência diante da compulsão.

Existe um princípio que salva vidas todos os dias e que ecoa nas salas dos Doze Passos: Só por Hoje.

É por isso que causa profunda preocupação ouvir campanhas resumidas na expressão “aposte com responsabilidade”. Para quem desenvolveu a ludopatia, essa frase tem a mesma eficácia de dizer a um alcoólico: “beba apenas um pouco”. Quem conhece a dependência sabe que, para muitos, uma aposta nunca será apenas uma aposta. Assim como uma dose nunca será apenas uma dose.

Há quase três anos venho escrevendo sobre esse tema. Não por pessimismo. Muito menos por preconceito. Escrevo porque testemunhei histórias que jamais consegui esquecer. Vi trabalhadores perderem o dinheiro destinado ao pagamento de seus empregados. Vi pessoas consumirem, em poucas horas, os recursos separados para comprar medicamentos. Vi famílias inteiras caminharem para o desespero absoluto.

Meu avô materno repetia um conselho que atravessou gerações. Dizia que eu jamais deveria brincar com o jogo. O pai dele havia perdido praticamente tudo por causa dessa compulsão, deixando para a família um legado de sofrimento que permaneceu vivo por muitos anos. Mais tarde, ainda jovem, conheci de perto o universo do vídeo pôquer. Bastaram poucas experiências para perceber que ali não havia diversão. Havia dor. Havia desespero. Havia pessoas tentando recuperar, em poucos minutos, aquilo que já haviam perdido muito antes: a liberdade.

Talvez Deus, em Sua infinita misericórdia, tenha me preservado daquele caminho. Tenho outras batalhas que enfrento diariamente, um dia de cada vez. Mas daquele abismo fui poupado. E justamente por isso sinto o dever moral de falar. Não para condenar quem caiu, mas para estender a mão a quem ainda acredita que não existe saída.

Existe.

Mas ela não começa na próxima aposta.

Começa no primeiro pedido sincero de ajuda.

Se você está lendo estas linhas e percebe que o jogo deixou de ser diversão para tornar-se necessidade; se as mentiras se tornaram frequentes; se as dívidas aumentam enquanto a esperança diminui; se você já perdeu noites de sono imaginando como esconder a próxima cobrança, saiba que você não é um caso perdido.

Procure ajuda.

Converse com sua família.

Procure um profissional de saúde mental.

Conheça os Jogadores Anônimos.

Permita que outras pessoas caminhem ao seu lado.

Porque nenhuma aposta vale a paz de um lar.

Nenhum prêmio vale o abraço tranquilo de um filho.

Nenhuma promessa de riqueza compensa o desespero de uma mãe.

E nenhum dinheiro do mundo vale mais do que uma vida que ainda pode ser reconstruída.

Enquanto houver honestidade, coragem para pedir ajuda e disposição para viver apenas o dia de hoje, sempre existirá esperança.

Sempre.

Rivelino Liberalino

Artigo do leitor: ” O vício em jogos não rouba apenas dinheiro. Rouba Famílias, histórias e vidas”

  1. Elizeu disse:

    Brasil tá infestado de bets , liga a TV, vai acessar um site de notícias, abre o YouTube aparece uma maldita propaganda de bet

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