Brasil registra maior número de feminicídios da história, aponta Anuário de Segurança Pública

por Karyne Ramos // 23 de julho de 2026 às 14:30

Foto: Ilustração

O Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, o maior número da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quarta-feira (23). O total representa um aumento de 4% em relação a 2024 e corresponde a uma taxa de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres, consolidando o quarto recorde consecutivo desse indicador.

O levantamento mostra que, enquanto os demais índices de violência letal apresentaram queda, os feminicídios continuaram em alta. Em 2025, o país registrou 40.775 Mortes Violentas Intencionais, uma redução de 8,2% em comparação com o ano anterior e a menor taxa da série histórica, com 19,1 mortes por 100 mil habitantes. Apesar desse cenário, os feminicídios e as mortes decorrentes de intervenção policial foram as únicas modalidades de mortes violentas que cresceram no período.

Para a coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Juliana Brandão, os números mostram que a violência contra a mulher segue uma dinâmica diferente da violência urbana em geral. “Enquanto os homicídios vêm caindo, as mulheres continuam morrendo por serem mulheres,” pontuou. Segundo a pesquisadora, fatores como desigualdade de gênero, padrões culturais de masculinidade, controle coercitivo e fragilidades na rede de proteção dificultam a interrupção de ciclos de violência doméstica.

Os dados revelam ainda que 44,4% de todas as mulheres assassinadas em 2025 morreram por razões de gênero, o maior percentual desde que o feminicídio passou a integrar o Código Penal, em 2015. Embora o ano tenha marcado a vigência integral da Lei nº 14.994/2024, que transformou o feminicídio em crime autônomo, a pesquisadora afirma que a mudança na legislação, por si só, não explica o aumento dos casos.

Se fosse apenas uma melhoria dos registros, esperaríamos uma estabilização dos números após alguns anos. O que observamos é um crescimento contínuo, acompanhado também pelo aumento de outros crimes relacionados à violência de gênero,” disse.

Entre esses crimes, o Anuário destaca o crescimento de 30% nos registros de perseguição (stalking) e de quase 17% nos casos de violência psicológica contra mulheres. Outro dado que chama atenção é o aumento das tentativas de feminicídio. Em 2025, 4.189 mulheres sobreviveram a tentativas de assassinato, alta de 5,9% em relação ao ano anterior. Isso significa que, para cada feminicídio consumado, houve 2,7 tentativas, indicando que milhares de mulheres escaparam da morte por circunstâncias alheias à vontade do agressor.

Na definição do Código Penal, a tentativa ocorre porque circunstâncias alheias à vontade do autor impediram a consumação do crime. Ou seja, ele não desistiu de matar; ele não conseguiu,” destacou..

O perfil das vítimas mostra que 65,1% eram mulheres negras, 56,5% tinham entre 25 e 44 anos e 62,5% foram assassinadas dentro da própria residência. Quando a autoria foi identificada, 96,4% dos crimes foram cometidos por homens. Em 60,9% dos casos, o autor era o parceiro íntimo da vítima; em 18,9%, um ex-parceiro; e em 12,1%, um familiar.

Os dados também revelam que o feminicídio costuma ser precedido por outros episódios de violência. Para cada caso registrado em 2025, houve, em média, 502 registros de ameaça, 182 casos de lesão corporal em contexto de violência doméstica, 84 descumprimentos de medidas protetivas, 79 registros de perseguição e 39 de violência psicológica.

Entre os estados que forneceram informações ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 70 mulheres foram assassinadas mesmo possuindo medida protetiva de urgência ativa, o equivalente a uma em cada nove vítimas. No mesmo período, o país contabilizou 132.025 casos de descumprimento de medidas protetivas, um aumento de 16,7% em relação ao ano anterior.

Para Juliana Brandão, o crescimento desses casos evidencia um dos principais desafios das políticas públicas de proteção às mulheres. “Estamos falando do descumprimento de uma decisão judicial emitida pelo próprio Estado. Quando essa ordem não é cumprida, o risco para a mulher permanece elevado,” completou.

Segundo a pesquisadora, os dados demonstram que, em muitos casos, o descumprimento das medidas protetivas antecede o feminicídio, reforçando a necessidade de estratégias voltadas à prevenção, à intervenção precoce e ao fortalecimento da rede de proteção às mulheres. (Fonte: CNN)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Últimos Comentários