Artigo do leitor: “Entre palácios e altares, quem é o seu Deus?”

por Antonio Carlos Miranda // 16 de julho de 2026 às 20:44

Foto: reprodução/internet

Em mais uma de suas reflexões pertinentes, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino mostra a faceta do poder que todos almejam, mas a maioria desconhece seus efeitos devastadores. Confiram:

Há momentos em que a História parece apenas trocar os personagens, preservando intacto o roteiro. Mudam-se os nomes, os governos, os partidos, os empresários, os banqueiros, as bandeiras e até os discursos. Mas a engrenagem permanece assustadoramente a mesma: o fascínio humano pelo poder. A tecnologia avança, os impérios se sucedem, as gerações mudam, mas a velha sedução da influência continua governando corações. O homem moderno acredita ter superado os ídolos da Antiguidade, quando, na verdade, apenas lhes deu novas vestes.

Os recentes episódios envolvendo Jeffrey Epstein, de um lado, e as investigações que alcançam o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro, de outro, possuem diferenças jurídicas evidentes e não podem ser confundidos. Cada caso deverá ser apreciado pelas autoridades competentes, sob o devido processo legal e com absoluto respeito à presunção de inocência. Entretanto, ambos iluminam um fenômeno muito mais profundo do que os fatos investigados: a extraordinária capacidade que o poder possui de atrair pessoas, silenciar consciências e anestesiar o senso moral. Talvez seja justamente aí que resida a verdadeira inquietação: perceber que, em diferentes épocas e circunstâncias, os centros de influência continuam exercendo o mesmo magnetismo sobre aqueles que desejam pertencer às mesas onde as decisões são tomadas.

No caso Epstein, o mundo ficou perplexo não apenas com os crimes atribuídos ao financista, mas, sobretudo, com a impressionante constelação de pessoas influentes que frequentavam seu círculo. Chefes de Estado, membros da realeza, empresários, bilionários, cientistas, artistas, intelectuais e líderes das mais variadas correntes ideológicas. A questão nunca foi apenas jurídica; ela é, antes de tudo, moral. Não basta perguntar quem praticou crimes. É preciso perguntar por que tantos homens considerados brilhantes desejavam permanecer próximos daquele ambiente, mesmo quando as primeiras condenações e denúncias já eram públicas. Talvez essa pergunta revele muito mais sobre a natureza humana do que qualquer sentença judicial.

A resposta talvez seja desconfortável. O verdadeiro produto nunca foi Epstein. Era o acesso. Quem controla o acesso controla ambições. Quem distribui influência raramente precisa impor obediência. Basta oferecer um convite, uma fotografia, um jantar reservado, uma mesa exclusiva, uma oportunidade que poucos possuem. O poder seduz sem levantar a voz. Ele não compra apenas favores; compra pertencimento. E, quando alguém passa a desejar mais o convite do que a própria consciência, a corrupção já começou muito antes de qualquer ilícito.

É exatamente por isso que episódios recentes noticiados envolvendo encontros reservados, eventos sociais exclusivos, degustações de uísques raros, relações entre empresários, autoridades, políticos, magistrados e integrantes das mais diversas instituições despertam tamanha inquietação na sociedade. Não porque a convivência, por si só, constitua ilicitude, não constitui. Mas porque ela evidencia algo muito maior: a permanente aproximação entre os grandes centros de decisão e aqueles que concentram riqueza, influência e capacidade de abrir portas. O verdadeiro debate não é apenas jurídico. É ético. É compreender como o prestígio pode, silenciosamente, tornar-se uma moeda capaz de relativizar convicções e adormecer consciências.

Talvez esta seja a maior ilusão da nossa época. Acreditamos que o mal sempre veste roupas grotescas. Jamais veste. O mal chega perfumado. Chega de terno sob medida, em aeronaves particulares, em salões iluminados, acompanhado de vinhos premiados, uísques centenários, jantares sofisticados e conversas reservadas onde poucos conseguem entrar. O mal não costuma bater à porta oferecendo corrupção. Ele oferece pertencimento. E poucas tentações são mais perigosas do que a necessidade humana de ser aceita pelos círculos do poder.

Foi exatamente isso que Israel fez no deserto. Enquanto Moisés permanecia diante de Deus, o povo decidiu fabricar um bezerro de ouro. Não porque tivesse deixado de acreditar em Deus, mas porque precisava de algo visível, tangível, admirável e poderoso. O ouro nunca foi apenas um metal; sempre foi um símbolo. Hoje ele já não possui a forma de um bezerro. Transformou-se em cargos, influência, convites, conexões, prestígio, patrimônio, acesso e reconhecimento social. Mudou a aparência. Jamais mudou a essência.

Talvez seja essa a maior tragédia do cristianismo contemporâneo. Entramos nas igrejas para adorar um Cristo renunciante. Ajoelhamo-nos diante daquele que nasceu numa estrebaria, caminhou entre pescadores, lavou os pés dos discípulos e morreu abandonado numa cruz. Mas basta terminar o culto para voltarmos os olhos para outro altar. Passamos a semana inteira fascinados pelo bezerro de ouro. Medimos pessoas pelo patrimônio, pela influência, pelos contatos e pela proximidade com ministros, governadores, presidentes, empresários ou banqueiros. Confundimos importância com virtude, prestígio com integridade e acesso com autoridade moral.

É nesse momento que começamos a relativizar aquilo que antes condenávamos. Porque o poder raramente exige que pratiquemos o mal; ele apenas pede que deixemos de fazer perguntas. A pior corrupção não é a do dinheiro. É a da consciência. É quando já não conseguimos distinguir entre admiração e idolatria, entre respeito institucional e reverência pessoal, entre justiça e conveniência, entre verdade e utilidade. Quando isso acontece, o coração já construiu o seu altar, ainda que continue frequentando os templos.

Escrevo estas linhas com inquietação, porque não me sinto acima dessa tentação. Também conheço o peso que um convite importante exerce sobre o coração humano. Também sei como o ego se alimenta da sensação de ser aceito nos ambientes considerados exclusivos. Talvez seja exatamente por isso que Cristo advertiu tanto sobre o perigo das riquezas, do prestígio e do poder. Não porque eles sejam maus em si mesmos, mas porque possuem a extraordinária capacidade de ocupar, silenciosamente, o lugar que pertence somente a Deus.

Por isso, a pergunta que deixo ao leitor não é sobre Epstein, Vorcaro, políticos, magistrados ou banqueiros. A pergunta é infinitamente mais difícil: qual é o meu bezerro de ouro? Porque toda idolatria cobra um preço. E, quase sempre, o último pagamento exigido não é financeiro.

É a consciência.

Rivelino Liberalino

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