O que resolveria, só na saúde, os milionários cachês de Ivete e Gusttavo Lima

por Carlos Britto // 18 de junho de 2026 às 10:30

Foto: Ascom PMP/divulgação

Enquanto milhares de sertanejos enfrentam madrugadas frias, filas quilométricas e meses de espera por uma consulta, exame ou cirurgia eletiva em Petrolina, os valores de grandes contratações artísticas que tocarão no São João do Vale, contratados pela prefeitura de Petrolina, acendem um debate inevitável: qual é a real prioridade na divisão do bolo orçamentário?

Para além do impacto cultural e do turismo, as cifras chamam a atenção quando convertidas em socorro imediato para a Saúde Básica do município. Quando somados, os cachês de R$ 1.000.000,00 para Ivete Sangalo e R$ 1.500.000,00 pagos ao cantor Gusttavo Lima totalizam R$ 2,5 milhões.

O que esse montante significa, na prática, dentro de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou no balcão de entrega de medicamentos da cidade?

Para entender a dimensão de R$ 2,5 milhões na saúde pública de Petrolina, o comparativo abaixo detalha o volume de insumos, remédios e equipes que poderiam ser financiados com esse valor:

A matemática dos cofres da prefeitura de Petrolina contrasta drasticamente com a realidade de quem depende do atendimento básico. A falta de medicamentos de uso contínuo nas farmácias municipais muitas vezes obriga famílias de baixa renda a escolherem entre o alimento e o remédio. Da mesma forma, a escassez de materiais simples nas unidades — que vai de fitas de verificação de glicemia a kits de curativo — estrangula o atendimento na raiz.

A grande questão que a sociedade e os órgãos de controle, como o Ministério Público, colocam em pauta não é a realização das festividades em si, mas o equilíbrio fiscal. É aceitável pagar cifras milionárias por poucas horas de entretenimento enquanto cidadãos esperam meses por um diagnóstico oncológico ou uma cirurgia de catarata?“, questionam especialistas em gestão pública.

Controvérsia

Embora as administrações costumem defender que os recursos para eventos artísticos muitas vezes provêm de dotações específicas da pasta do Turismo ou da Cultura — ou que o retorno econômico para o comércio local justifica o investimento —, a população que vivencia a precariedade dos postos de saúde enxerga o montante sob outra ótica: a do privilégio do supérfluo sobre o vital.

O debate permanece aberto nas esquinas de Petrolina. Mas, em termos estritamente financeiros, os números não mentem: o valor de poucas horas de palco cobriria meses de dignidade, insumos e alívio nas filas da saúde de quem mais precisa.

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