Artigo do leitor: “Quando o perdão supera a morte – o dia em que o evangelho saiu do discurso e sangrou diante de nós”

por Carlos Britto // 17 de abril de 2026 às 21:00

Foto: reprodução Internet

Ainda sob forte comoção do assassinato brutal de Sidnei Lopes, funcionário de uma distribuidora de água na Cohab Massangano, no último sábado (11) em Petrolina, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino faz uma refexão profunda do significado real de ser um seguidor de Jesus Cristo. Confiram:

Há dores que não cabem na linguagem.

Há perdas que não se descrevem, apenas se atravessam, como quem caminha sem chão, sustentado por algo que não se explica.

No último sábado, a violência interrompeu uma vida. Não apenas uma vida qualquer. Interrompeu um marido, um pai, um homem que escolheu recomeçar. Que saiu de Caxias do Sul com esperança no peito e encontrou aqui um lugar para viver, servir e amar.

Um homem de fé viva. Não de palavras. De prática.

Alguém que não apenas frequentava uma igreja, mas que a vivia no cotidiano, nos gestos, no modo de existir.

E então, de forma brutal, tudo foi arrancado.

Porque quem mata não apenas tira uma vida. Rouba, pois retira mediante violência.

Rouba o esposo de uma mulher.

Rouba o pai de filhos.

Rouba histórias que ainda seriam escritas.

Rouba futuros que ainda seriam vividos.

Mas foi no meio desse cenário, onde tudo autorizaria o grito, o ódio, a revolta, que algo absolutamente desconcertante aconteceu.

A viúva.

Com a dor ainda aberta.

Com o corpo do esposo ainda por velar.

Com a alma atravessada por uma ausência irreparável.

Ela falou.

E não falou com ódio.

Ela abençoou.

Abençoou quem tirou a vida do homem que ela amava.

Naquele instante, não era apenas uma mulher sendo entrevistada.

Era o Evangelho em carne viva.

Era a fé deixando de ser teoria e se tornando prática no momento mais improvável, mais injusto, mais doloroso. “Pai, perdoa-lhes…”

De repente, aquilo que muitos repetem sem viver ganhou corpo, ganhou verdade, ganhou peso.

E eu confesso: isso me atravessou.

Me desmontou.

Porque é fácil falar de amor quando nada nos falta.

É fácil falar de perdão quando não fomos profundamente feridos.

Mas ali não havia teoria.

Ali havia cruz.

E aquela mulher carregou a sua diante de todos nós.

Sem palco.

Sem preparação.

Sem discurso ensaiado.

Apenas com fé.

E então eu me pergunto e talvez você também devesse se perguntar:

Que tipo de fé é essa que não quebra diante da dor, mas se revela ainda mais forte?

Porque perdoar no conforto é discurso.

Mas perdoar no luto… é algo que não nasce do humano comum.

Isso vem de algo maior.

Isso vem de Deus.

Mas há algo que também precisa ser dito.

Porque, naquele cenário onde a dor poderia ter se tornado solidão, houve presença.

Houve Igreja.

Não as paredes.

Não a estrutura.

Mas a Igreja viva.

Gente.

Braços.

Lágrimas.

Abraços que sustentam quando as palavras falham.

Eles estavam ali.

Não com frases prontas.

Mas com presença real.

Acolheram.

Abraçaram na dor.

Choraram junto.

Deram calor humano.

E isso, nesse tipo de momento, não é detalhe.

É sustento.

Porque há dores que, se vividas sozinho, esmagam.

Mas, quando divididas, ainda doem, mas não destroem.

E eles foram isso.

Presença.

Amparo.

Família.

O Corpo vivo de Cristo se manifestando de forma silenciosa, mas poderosa.

E não pararam no abraço.

Agiram.

Se mobilizaram.

Fizeram o que precisava ser feito.

Tornaram possível o translado.

Ajudaram a conduzir aquele corpo de volta à sua terra natal, para o último encontro com suas origens, com sua história, com aqueles que também o amavam.

Isso é Evangelho.

Não o que se prega.

Mas o que se faz.

Porque há uma diferença profunda entre falar de fé… e sustentar alguém quando a fé dele está sendo testada no limite da dor. Eles sustentaram.

E isso também me atravessa.

Porque, num mundo onde tantos passam invisíveis na dor, ali houve comunidade.

Houve cuidado.

Houve amor em ação.

E talvez seja isso que mais nos desarma.

Porque enquanto muitos discutem religião…

Ali, alguém viveu.

Enquanto muitos defendem doutrinas…

Ali, alguém perdoou.

Enquanto muitos falam de Deus…

Ali, Deus se manifestou.

Na dor.

No perdão.

No abraço.

No cuidado.

Hoje, aquele corpo retorna para sua terra.

Mas o que ficou aqui não foi apenas a ausência de um homem bom.

Foi um testemunho.

Um daqueles que não se apagam.

Um daqueles que não se esquecem.

Um daqueles que, se a gente permitir, nos transforma.

Eu escrevo isso com o coração apertado. Porque dói.

Mas, ao mesmo tempo, há algo de profundamente belo nisso tudo.

Algo que não faz sentido para a lógica humana.

Mas que revela uma verdade maior.

Cristianismo não é discurso.

Cristianismo é prática.

É amar quando amar parece impossível.

É perdoar quando tudo dentro de você grita por justiça.

É permanecer quando tudo te convida a desistir.

E, naquele momento, nós vimos isso.

Não em palavras.

Mas em vida.

E talvez tenha sido no momento mais escuro dessa história…

que muitos tenham visto, pela primeira vez com clareza…

o que é, de fato, seguir a Cristo.

Rivelino Liberalino

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