Artigo da Leitora: “O desafio invisível de ingressar no mercado de trabalho como enfermeira”

por Carlos Britto // 14 de fevereiro de 2026 às 12:15

(Foto: Divulgação)

Neste artigo, a leitora Isla Santos relata os desafios enfrentados por enfermeiras recém-formadas para ingressar no mercado de trabalho, mesmo em regiões com hospitais e unidades de saúde. Ela destaca que a exigência de experiência mínima, aliada à escassez de oportunidades e à percepção de interferências políticas nos processos seletivos, tem dificultado a conquista do primeiro emprego. O texto é um convite à reflexão sobre a valorização dos profissionais iniciantes e a necessidade de políticas que ampliem as chances de inserção na área da Enfermagem.

Confiram:

Formar-se em Enfermagem deveria ser o ponto de partida para uma carreira dedicada ao cuidado e à promoção da saúde. No entanto, para muitas enfermeiras recém-formadas, o diploma não abre portas — ele escancara um problema estrutural: como exigir experiência de quem nunca teve a oportunidade de trabalhar? Mesmo em cidades com hospitais, UBSs e demanda constante por profissionais, o desemprego revela uma contradição silenciosa que precisa, urgentemente, ser discutida.

Concluir a graduação em Enfermagem costuma vir acompanhada de expectativas altas — e legítimas. Trata-se de uma profissão essencial, presente em hospitais, unidades básicas de saúde e em praticamente toda a estrutura do sistema público. No nosso caso, essa expectativa parecia ainda mais concreta: moramos em uma cidade com Hospital Regional, que faz divisa com Petrolina, município que também concentra um hospital de referência, além de diversas UBSs em ambas as localidades. À primeira vista, o cenário parecia promissor.

A realidade, porém, mostrou-se bem diferente. Já se passou um ano e meio desde a conclusão do curso, e a inserção no mercado de trabalho tem sido marcada por frustração e desânimo. As oportunidades simplesmente não aparecem — ou surgem acompanhadas de exigências que se tornam um verdadeiro paradoxo para quem está começando. A principal barreira é conhecida por muitos recém-formados: quase todas as vagas exigem experiência mínima de seis meses. Cria-se, assim, um ciclo difícil de romper — não conseguimos emprego porque não temos experiência, e não adquirimos experiência porque não conseguimos emprego. Todo o esforço investido ao longo da graduação, incluindo estágios, práticas supervisionadas e anos de dedicação, parece não ser suficiente para garantir a primeira oportunidade.

Como se não bastasse, há ainda um fator que torna esse cenário mais delicado: a percepção de interferências políticas nos processos seletivos. Em muitos casos, a escolha dos profissionais parece priorizar relações e interesses externos, deixando em segundo plano critérios como competência, qualificação técnica e potencial profissional. Essa realidade desmotiva, desvaloriza o mérito e fragiliza a confiança de quem deseja, de fato, contribuir com a saúde pública.

É inegável que a experiência profissional tem seu valor. Contudo, também é preciso reconhecer que a formação acadêmica, quando aliada ao compromisso ético, à responsabilidade e à disposição para aprender, deveria ter peso real nas contratações. A Enfermagem é uma profissão dinâmica, que exige atualização constante, e o ambiente de trabalho é parte fundamental desse processo de amadurecimento. Sem a oportunidade inicial, muitos profissionais permanecem à margem, aguardando uma chance que, muitas vezes, parece nunca chegar.

Este texto não é apenas um desabafo — é um chamado à reflexão. Gestores públicos, instituições de saúde e autoridades competentes precisam repensar as políticas de contratação e valorização dos profissionais de Enfermagem. Criar programas de inserção para recém-formados, ampliar estágios remunerados, residências e capacitações práticas são caminhos possíveis e necessários para fortalecer o sistema de saúde e ampliar a qualidade da assistência prestada à população.

Investir em profissionais recém-formados é investir no futuro da saúde pública. É garantir um atendimento mais humanizado, qualificado e comprometido com a comunidade. Valorizar quem escolheu cuidar do outro é um passo essencial para construir um sistema de saúde mais justo, eficiente e verdadeiramente acessível para todos.

Isla Santos/Leitora

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