Artigo do leitor: “O ano em que a vida tem gritado mais alto”

por Carlos Britto // 07 de fevereiro de 2026 às 21:35

(Foto: Reprodução)

Neste artigo, o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, o quão efêmera é a vida de cada um de nós. Confiram:

Meus amigos… este ano começou pesado.

E o mais impressionante é isso: ainda estamos no início.

Ainda estamos em fevereiro. E, mesmo assim, já parece que a vida resolveu falar mais alto do que o barulho do mundo.

Em poucos meses, fomos atravessados por choques, despedidas e reflexões. Daquelas que não chegam pedindo licença. Chegam impondo silêncio.

Silêncio por dentro.

Um silêncio que nos obriga a encarar, sem distrações, aquilo que a rotina costuma esconder: a fragilidade humana, a falência moral de muita coisa que antes parecia sólida, e a finitude, essa realidade inevitável, dura, mas absolutamente democrática.

Porque a morte, gostemos ou não, é a certeza mais coerente que existe.

Ela não avisa.

Não manda recado.

Não negocia.

Não escolhe currículo.

Não respeita fama.

Não se impressiona com saldo bancário.

Não se comove com seguidores.

Ela chega.

E quando chega, aquilo que a gente chamava de “urgente” vira poeira.

Nos últimos dias, mais uma vez, fomos empurrados para esse lugar que ninguém quer visitar, mas que todo ser humano, cedo ou tarde, é obrigado a encarar: o lugar do fim.

E ontem tivemos mais uma despedida.

Morreu Henrique Madeirite. O influenciador do bordão que virou alegria coletiva: “Sextou, bebê!”

E o que mais atravessa a alma não é apenas a notícia. É o contraste. Henrique exalava vida. Era intensidade. Era riso. Era presença.

Falava de política com coragem.

Falava de Deus do jeito dele.

Falava da vida com uma energia que parecia acender luz dentro dos outros.

E morreu justamente numa sexta-feira.

Talvez exista, sim, algo daquele velho adágio que sempre volta nesses momentos: tal vida, tal morte.

O “sextou” dele virou silêncio.

E, de repente, o Brasil inteiro entendeu uma coisa que sempre soube, mas insiste em fingir que esqueceu: ninguém está no controle.

O ano começou me mandando um recado dentro de casa.

De forma abrupta, sem aviso, um dos nossos cãezinhos se foi.

E eu precisei encarar o choro dos meus filhos.

Por dentro, eu estava em pedaços.

Mas por fora eu precisava ser pai.

Precisava ser coluna.

E disse a eles, com a voz que dava:

a vida está sinalizando.

Porque qualquer hora pode ser um de nós.

Nada é nosso.

Somos meros usufrutuários da vida.

Pouco depois, mais um choque: Daniel Rocha, aos 42 anos.

O idealizador do Açaí do Grau.

Cheio de vida. Cheio de planos. Cheio de futuro.

E, ainda assim, partiu rápido.

Como se a vida tivesse arrancado a página no meio do livro.

E também tivemos a juventude interrompida: Isabel Veloso.

Tão jovem.

Uma menina.

Câncer.

E a gente, adulto, cheio de arrogância disfarçada, ainda insiste em viver como se tivesse tempo garantido.

Como se juventude fosse contrato.

Como se amanhã tivesse assinatura.

Bruce Willis…

o homem que o mundo aprendeu a ver como invencível.

Hoje, vive o apagamento.

A fala se foi.

A presença virou ausência.

E o que tudo isso nos mostra, sem piedade, é uma verdade simples:

a vida não pede licença.

A gente se projeta tanto nas aquisições.

Nos títulos.

Nos planos.

No dinheiro.

No nome.

E, no entanto, basta um sopro para tudo se reorganizar por dentro.

Porque no fim, meu irmão…

não é o que você juntou que vai te sustentar.

No fim, você só vai querer três coisas:

presença.

afeto.

Deus.

Há uma filosofia que me salva: só por hoje.

Não é frase bonita.

É sobrevivência espiritual.

Só por hoje eu vou amar.

Só por hoje eu vou perdoar.

Só por hoje eu vou estar presente.

Só por hoje eu vou dizer o que importa.

Só por hoje eu vou viver.

Porque, no fundo, só temos o agora.

O depois é arrogância.

E o amanhã é uma promessa que ninguém nos fez.

E como já advertia William Shakespeare, em O Menestrel:

“o amanhã costuma cair no vão.”

Eu confesso minha humanidade.

Às vezes o ego grita.

Às vezes a vaidade aparece.

Às vezes me torno irritadiço.

Às vezes falho.

Tenho vencido algumas batalhas.

Tenho perdido outras.

Mas o que importa é que eu tenho tentado diminuir minhas derrotas.

E a vida, quando grita, me chama de volta.

A pergunta não é por que a morte existe.

A pergunta é outra e ela dói mais:

por que a gente só acorda quando perde?

por que a gente só ora quando sangra?

por que a gente só se ajoelha quando o chão some?

Pare um minuto.

Respire.

Olhe para dentro, sem performance, sem máscara, sem autoengano.

Aliás, quantas máscaras usamos…

para sobreviver socialmente, para parecer fortes, para não desmoronar em público, para fingir que está tudo bem.

E então, com honestidade, faça a única pergunta que realmente importa:

Meu Deus… o que eu estou fazendo da minha vida?

Porque, no fim, a morte não é apenas o fim.

Ela é o recado mais sério da vida.

E quem entende isso cedo…

vive melhor.

Ama mais.

Perdoa mais.

E aprende a não desperdiçar o que não volta.

Rivelino Liberalino

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