A divulgação das notas do Enem 2025 gerou questionamentos entre candidatos e professores após a identificação de quedas expressivas no desempenho da redação, incluindo casos de participantes que historicamente pontuavam alto. Uma jovem de Petrolina, por exemplo, viu sua nota cair de 980 em edições anteriores para apenas 560 em 2025, o que reforçou suspeitas de alterações na forma de correção. Esses relatos levaram à análise de documentos internos, comunicações oficiais e relatos de corretores, que apontam diferenças na prática de avaliação, mesmo após o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) negar mudanças nos critérios.
De acordo com materiais obtidos pela reportagem, ao menos três diferenças identificadas em 2025 podem ter influenciado a correção dos textos. A primeira refere-se à competência 4, que avalia o uso de elementos coesivos no texto. Enquanto no modelo tradicional havia parâmetros objetivos, neste ano a orientação passou a ser mais subjetiva, classificando a presença desses elementos como “pontual”, “regular” ou “expressiva”, abrindo margem para interpretações variadas por parte dos corretores.
Outra alteração, revelada em documentação interna, envolve a proposta de intervenção, parte obrigatória da redação. Embora os cinco itens exigidos — ação, agente, finalidade, meio e detalhamento — continuem previstos, uma orientação extra em 2025 determinou penalização mais severa quando o item “ação” fosse interpretado como falta ou mal colocado, resultando em perdas de pontos maiores do que haviam sido praticadas anteriormente.
A terceira mudança apontada está relacionada à avaliação do repertório sociocultural. Embora a grade oficial de correção não tenha sido alterada, um documento confidencial enviado aos corretores passou a orientar que repercussões negativas em repertório fossem consideradas em duas competências ao mesmo tempo, ampliando o impacto de uma avaliação desfavorável.
O Inep reforça que não houve alteração nos critérios de correção e que a avaliação seguiu os mesmos parâmetros adotados nos anos anteriores. Em nota, o órgão afirmou que cada redação é corrigida por ao menos dois avaliadores, com previsão de terceira correção em caso de divergência, garantindo tratamento isonômico a todos os participantes.
A discussão sobre possíveis mudanças é ainda mais sensível porque, pela primeira vez, o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) passou a considerar as notas das três últimas edições do Enem para ingresso em universidades públicas. Especialistas em educação afirmam que eventuais alterações não comunicadas previamente podem criar distorções na comparação entre candidatos avaliados sob critérios diferentes.
Alguns professores e corretores também afirmam que a correção sofreu influência de fatores como sobrecarga de trabalho, baixo pagamento por redação corrigida e inconsistências na comunicação das orientações de avaliação, aspectos que podem impactar a padronização do processo.
Até o momento, o Inep não se manifestou oficialmente sobre os questionamentos relacionados às condições de trabalho dos corretores e à influência desses fatores na correção das redações. (Com informações do G1)


