Neste novo artigo, o colaborador do Blog Rivelino Liberalino faz uma análise pertinente acerca dos cursos de ensino superior.
Confiram:
Há algo profundamente errado quando uma escola transforma conquistas em ranking de glamour.
Quando anuncia, com destaque quase solene, os aprovados em Medicina como se ali estivesse o ápice da realização humana, enquanto os demais cursos aparecem como prêmio de consolação, um rodapé tímido da vitória.
Não se trata apenas de divulgar resultados.
Trata-se de ensinar valores.
E, nesse ponto, estamos errando feio.
Toda profissão tem dignidade própria.
Toda vocação tem beleza própria.
Toda atividade tem função social indispensável.
Sem a pedagogia, não existiria nenhuma das outras.
Sem o professor, não há médico, advogado, engenheiro, enfermeira, fisioterapeuta, odontólogo.
Sem o direito, não há limite nem garantia.
Sem a enfermagem, não há cuidado contínuo.
Sem a engenharia, não há estrutura.
Somos interdependentes.
Ninguém se sustenta sozinho.
Fui criado ouvindo duas frases simples, mas definitivas: que eu estudava para mim e que a educação era a verdadeira saída de pobre.
Nunca me disseram faça este ou aquele curso.
Disseram: estude.
E estudei.
Formei-me em áreas distintas, escolhi meu caminho e aprendi algo que a vida ensina com rigor: o valor de uma profissão não está no status, mas no serviço que ela presta à sociedade.
O problema é que parte da educação atual abandonou a formação integral.
Distribui conteúdo, mas não forma caráter.
Entrega conhecimento, mas não cultiva disciplina.
Estimula competição, mas não ensina humanidade.
O outro deixou de ser colega.
Virou concorrente.
Isso adoece a juventude.
Não por acaso, crescem os índices de ansiedade, depressão e suicídio.
Conhecimento sem valores não liberta. Oprime.
Venho de um colégio salesiano de Petrolina.
Ali se orava pela manhã.
Cantava-se o hino.
O esporte e a cultura tinham o mesmo peso da nota.
Levantávamo-nos quando alguém entrava na sala.
Não era saudosismo.
Era formação humana.
Hoje, glamouriza-se a Medicina como símbolo máximo de sucesso, quase como promessa de retorno financeiro rápido.
Não fácil, porque não é.
Mas transformada em medalha social.
Vi muitos pais tentando realizar nos filhos sonhos que nunca foram deles.
O resultado é frustração, pressão e escolhas que não nascem da vocação, mas da expectativa.
Há ainda um dado que poucos querem encarar:
o mercado está saturando.
As avaliações recentes mostram formação deficiente em muitas instituições.
Profissionais estão sendo lançados sem preparo adequado.
Na saúde, isso não é detalhe. É risco.
A história já mostrou esse roteiro.
Aconteceu com a engenharia.
Com o direito.
Com a odontologia.
A chamada uberização das profissões não poupa ninguém.
Por isso, a pergunta que precisa ser feita não é quem passou em Medicina.
A pergunta correta é outra, bem mais profunda: Que tipo de ser humano estamos formando quando ensinamos que algumas profissões valem mais do que outras, esquecendo que toda profissão é digna e que todos nós dependemos uns dos outros?
Rivelino Liberalino


