Artigo do leitor: “O boleto como corrente – quando a normalidade vira extorsão”

por Carlos Britto // 24 de janeiro de 2026 às 16:20

Foto: reprodução

Neste artigo o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, analisa a realidade tributária de um país que não devolve aos cidadãos brasileiros as melhorias que deveriam advir através dos seus impostos.

Confiram:

Há algo profundamente errado quando o trabalho já não traz dignidade, apenas cansaço.

No Brasil, não se tributa apenas a renda.

Tributa-se a existência.

Você acorda cedo, produz, empreende, insiste. E, ainda assim, termina o mês com aquela sensação incômoda de que alguém passou por você e levou um pedaço do que era seu. Não é impressão. Não é vitimismo. É método. Com carimbo, boleto e data de vencimento.

Você compra um carro e descobre, cedo demais, que não é dono. Paga imposto para comprar, para circular, para manter, para vender. IPVA não é taxa. É aluguel compulsório de algo que já foi pago. Basta comparar: um Corolla no Brasil custa milhares por ano; no Paraguai, algumas centenas. A diferença não está lá. Está aqui. Aqui normalizaram o absurdo.

Chamam isso de justiça social.

Mas quem sente na pele sabe: é confisco pulverizado.

O assalariado quase não percebe. O dinheiro some antes de chegar à conta. O desconto vem antes do salário existir. O empresário percebe todo mês, no boleto, no DAS, no imposto sobre imposto, na multa disfarçada de contribuição. E ambos sustentam uma máquina que arrecada como país rico e entrega como país falido.

Trabalhamos quase cinco meses do ano apenas para pagar impostos.

Cinco meses da vida entregues ao Estado.

E o retorno?

Hospitais sem estrutura.

Escolas sem futuro.

Estradas que matam.

Segurança que não protege.

A arrecadação bate recordes. Ano após ano.

A corrupção também.

E, mesmo assim, pedem mais. Sempre mais.

Não é discurso. É dado. O Brasil figura entre os países com maior carga tributária do mundo e o pior retorno em qualidade de vida. Algo que não fecha na matemática, não se sustenta na moral e só se explica pela conveniência política.

Quando alguém pergunta para onde vai o dinheiro, não vem resposta.

Vem torcida.

A política deixou de ser debate. Virou paixão cega. Partido virou time. A razão saiu de campo. Escândalos se acumulam, provas aparecem, fatos se repetem, mas a fidelidade ideológica fala mais alto que a verdade. Nega-se o óbvio para preservar a crença. Questionar virou afronta.

Foi assim no mensalão. Foi assim em tantos outros episódios.

É assim quando se relativiza a verdade, quando se tenta lançar dúvida onde laudos, cirurgias, processos e decisões já falaram com clareza. Já não se discute a realidade. Discute-se o que convém acreditar.

Enquanto isso, no Brasil real, longe dos gabinetes climatizados, corta-se saúde, corta-se educação e amplia-se o assistencialismo eleitoreiro. Distribuem-se máquinas, verbas e favores como se fossem propriedade privada. Chama-se política pública aquilo que, no fundo, é estelionato eleitoral institucionalizado.

Não se trata de esquerda ou direita.

Não se trata de nomes ou siglas.

Trata-se de algo mais profundo e mais doloroso: o brasileiro trabalha como escravo moderno para sustentar uma estrutura que não o serve, não o protege e não o respeita.

Hoje não há corrente no pé.

Há boleto no e-mail.

Não há chicote.

Há imposto.

Não há senhor visível.

Há um sistema inteiro vivendo do seu suor.

As grandes mudanças nunca começaram em gabinetes. Começaram quando gente comum cansou de fingir normalidade. Começaram com caminhadas, com consciência, com coragem. Cristo caminhou. Ideias caminharam. Povos despertaram.

E a pergunta que fica, incômoda, silenciosa e impossível de ignorar, é esta:

se você trabalha a maior parte da sua vida para sustentar um Estado que arrecada como país rico, devolve como país falido e ainda te chama de privilegiado… quem, afinal, é livre neste país?

Rivelino Liberalino

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