A Operação ‘Overclean’, investigação da Polícia Federal (PF) que apura o desvio de verbas de emendas parlamentares, chegou à 9ª fase no último dia 12 de janeiro. O alvo foi o deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), o quarto parlamentar investigado na operação.
Foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão por ordem do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), em imóveis e endereços ligados ao deputado em Brasília e na Bahia. O STF também determinou o bloqueio de R$ 24 milhões de contas ligadas a investigados.
O ‘Fantástico’, da Rede Globo, percorreu mais de 2.500 km em três Estados do Nordeste para descobrir o destino das emendas. A reportagem encontrou obras ‘fantasmas’, construtoras que enganaram a população e trabalhadores que levaram calote.
A PF conseguiu rastrear o envio de milhões de reais em emendas de Mendonça Júnior para ao menos três municípios da Bahia. Em Boquira, foram R$ 4 milhões. Em Ibipitanga, quase R$ 13 milhões. E em Paratinga, pouco mais de R$ 8 milhões. Em junho de 2025, policiais apreenderam documentos e o celular de Marcelo Gomes, assessor do deputado. O material, obtido pelo Fantástico, inclui várias conversas de Marcelo com o empresário Evandro Baldino.
Asfalto fantasma na Bahia
O Fantástico acompanha a Operação Overclean desde a primeira fase, em dezembro de 2024. Na época, o programa esteve em Campo Formoso, norte da Bahia, e mostrou a espera pelo asfaltamento de uma estrada. Um ano depois, o asfalto ainda não chegou. Parte do dinheiro para o asfalto fantasma veio de uma emenda de 2021 dentro do orçamento secreto, que não identifica o autor do repasse.
O projeto virou um convênio entre a prefeitura de Campo Formoso e a empresa estatal Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba). A Codevasf informou que R$ 8 milhões corresponderiam à contrapartida da prefeitura. E que, ao realizar ação de fiscalização, identificou inconsistências que comprometem a continuidade da execução.
O prefeito de Campo Formoso é Elmo Nascimento (UB), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (UB-BA). O superintendente regional da Codevasf na época era Miled Cussa Filho, indicado por Elmar para o cargo. Miled disse que alertou a prefeitura e os órgãos de controle sobre as irregularidades e que foi demitido da Codevasf por colaborar com as investigações.
“Encaminhei para o Ministério Público Federal, CGU [Controladoria-Geral da União], relatando todas as irregularidades dos convênios e aí eu fui demitido“, disse Miled.
Um relatório da PF menciona que a CGU fez uma auditoria sobre as obras e, a partir da análise de uma planilha de emendas, deduziu que o valor foi enviado pelo deputado Elmar Nascimento. O Fantástico procurou o deputado, que não quis gravar entrevista. Por mensagem, ele negou o envio de emendas para essas obras em Campo Formoso.
Calote em trabalhadores
O caminhoneiro Jaelson Brito é morador de Campo Formoso e foi contratado para trabalhar na obra. Ficou sem estrada e sem salário. “No início, a empresa pagou o primeiro mês. No segundo mês, a gente trabalhou. Depois, ficamos fazendo as medições e sempre atrasando, atrasando. Passou dois, três meses, aí não recebemos. Eu não recebi. Meu prejuízo ficou em R$ 28 mil“, afirmou.
A empresa responsável pela obra era a Allpha Pavimentações. Em dezembro de 2024, enquanto Jaelson tentava reaver o dinheiro perdido, os donos da empreiteira foram presos no aeroporto de Salvador, carregando malas de dinheiro.
Segundo o Portal da Transparência, nos últimos quatro anos, a Allpha Pavimentações, recebeu R$ 67 milhões em recursos federais, quase tudo do orçamento secreto. A Allpha e a Codevasf aparecem no centro da Operação Overclean. Segundo a PF, o esquema movimentou R$ 1,4 bilhão em quatro anos.
Investigação em Alagoas
As investigações também chegaram a Rio Largo (AL), vizinha a Maceió. A cidade tem um histórico de problemas com corrupção, e prefeitos já foram afastados e até presos.
Nos últimos seis anos, o município recebeu quase R$ 100 milhões em emendas, principalmente do orçamento secreto. Mas os moradores convivem com problemas crônicos, moradias precárias, falta de saneamento básico e obras inacabadas. Só o Fundo Municipal de Saúde de Rio Largo recebeu quase R$ 64 milhões em emendas. Ainda assim, as unidades básicas ficaram fechadas durante quase um mês na virada de ano.
Um vídeo publicado em dezembro de 2024 pelo então prefeito Gilberto Gonçalves (PP) mostra obras na via conhecida como Estrada das Canas. O dinheiro veio de uma emenda de quase R$ 6 milhões pelo deputado Arthur Lira (PP-AL).
A pavimentação foi feita, mas o asfalto afundou em vários pontos da via. Arthur Lira disse que falta fazer a remoção de postas de energia e que houve um atraso em uma desapropriação de área privada. Segundo ele, a prefeitura tem mais de R$ 4 milhões reservados para o serviço.
Gilberto Gonçalves foi preso em 2022 na Operação Beco da Pecúnia, que identificou desvios em contratos da prefeitura. Na época, o Fantástico mostrou que a propina era distribuída em um beco próximo à prefeitura. Gilberto reassumiu o cargo e terminou o mandato.
A população de Estrela de Alagoas (AL) também espera pelo asfalto. O Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS), anunciou o asfaltamento de duas estradas rurais a um custo total de R$ 25 milhões.
Em uma das vias, só foi feita a terraplanagem. Em outra, o asfalto chegou apenas em um trecho. As obras pararam e nunca mais voltaram após as eleições de 2024. A cidade era governada por Aldo Lira (PP), que aparece em um vídeo agradecendo a Arthur Lira pela obra. O deputado, por sua vez, disse que a responsabilidade sobre a obra é do DNOCS. (Fonte: g1)


