Neste novo artigo, o colaborador do Blog, Rivelino Liberalino, reflete sobre a morte precoce da influencer Isabel Veloso e o impacto que sua história provoca para além da doença. O texto aborda a dor da perda, a fé vivida sem espetáculo, a maternidade como gesto extremo de amor e a crueldade dos julgamentos nas redes sociais. A partir de memórias pessoais e questionamentos sobre a finitude da vida, o autor convida o leitor a repensar a forma como reage à dor do outro, defendendo mais silêncio, empatia e humanidade enquanto ainda há tempo.
Confiram:
Há histórias que transcendem o debate.
Não porque faltem argumentos, mas porque o argumento se torna obsceno diante delas.
Isabel Veloso partiu aos dezenove anos. E, antes de qualquer reflexão sobre sua vida, é inevitável uma reflexão sobre nós , mas sobre como a morte do outro nos expõe, nos desnuda e nos cobra humanidade.
Quando eu era jovem, inquieto como todo jovem que começa a desconfiar das injustiças do mundo, perguntei ao meu avô, Leocádio Liberalino ,meu pai de criação , por que Deus permitia que jovens morressem. Ele não respondeu com teologia nem com discursos longos. Respondeu com presença. Olhou-me com serenidade e disse: “São os insondáveis mistérios da vida, meu filho”.E, diante da minha insistência inconformada, completou: “Talvez Deus leve alguns jovens cedo para não parecer injusto apenas com os mais velhos”.
Naquela época, aquilo não me bastava.
Hoje, dói , mas faz sentido.
Foi impossível não lembrar dessas palavras ao acompanhar a trajetória de Isabel. Meu primeiro contato com ela foi numa entrevista. Quem assistiu, não esquece. Não havia ali espetáculo nem comércio da dor. Havia verdade dura: uma jovem dizendo, com maturidade desconcertante, que estava em cuidados paliativos. Do outro lado, um entrevistador chorava , porque ainda somos humanos quando a dor é grande demais para ser ignorada.
Quem é pai entende. Quem é mãe sente no corpo. Não se vê uma “história”. Vê-se um filho. E o coração cede.
Isabel enfrentou um linfoma agressivo. Foram anos de quimioterapia, recaídas, internações, um transplante de medula óssea. Dor física. Dor emocional. Mas o câncer não foi seu único inimigo.
Sabe o que é mais cruel que o câncer?
É ter câncer e ainda precisar provar isso para a internet.
Quando ela tinha um dia melhor, desconfiavam. Quando sorria, julgavam. Quando não correspondia ao estereótipo que esperam de alguém doente, atacavam. Quando casou, questionaram. Quando engravidou, condenaram. Como se gerar vida em meio à dor fosse irresponsabilidade ,e não um gesto extremo de amor.
Isabel precisou exibir laudos, exames, diagnósticos, como se a dor só fosse legítima depois de validada por estranhos. Como se a compaixão tivesse pré-requisitos. E, ainda assim, ela sustentou.
Porque Isabel jamais transformou a fé em palco. Não fez de Deus um discurso, não anunciou milagres, não negociou esperança com o algoritmo. O que ela fez foi infinitamente mais difícil: permaneceu de pé.
Não com aquela crença ruidosa que grita certezas fáceis e promete finais felizes a qualquer custo, mas com uma fé adulta, silenciosa , aquela que, muitas vezes, só consegue admitir: tenho medo, mas sigo confiando.
A fé de Isabel não disfarçava a dor. Não a maquiava. Ela atravessava a dor inteira, com os pés descalços, sem perder a delicadeza, sem permitir que o sofrimento lhe roubasse o amor.
Em um desses momentos de lucidez rara, ela deixou um pedido que ainda ecoa como oração: “Respira por mim o que eu não consegui respirar”.
Isabel realizou um de seus maiores sonhos: ser mãe. Arthur nasceu prematuro, pequeno, mas saudável , um símbolo absoluto de resistência, sentido e amor. Talvez o maior testemunho de Isabel não tenha sido o que ela disse, mas o que ela não deixou acontecer. A dor não a endureceu. A crueldade não a contaminou. O fim não lhe roubou a ternura, nem a fé, nem a humanidade.
Hoje sei, com a clareza que só a dor ensina, que sou mero usufrutuário da existência. Nada me pertence. Nem o tempo, nem os afetos, nem a própria vida. Tudo é empréstimo. Tudo é provisório. Mas sei também que existe um poder superior e que a morte não é o fim ,mas a porta de volta para casa.
Isabel partiu cedo demais.
E agora, como quase sempre acontece, muitos se emocionam.
Mas a pergunta permanece, incômoda e necessária: por que a delicadeza só chega depois que a pessoa vai embora?
Se a história de Isabel servir para alguma coisa, que sirva para nos converter em vida. Menos julgamento. Mais silêncio. Menos crueldade. Mais acolhimento. Menos espetáculo. Mais presença.
E a nós, que ainda respiramos, fica a pergunta que rasga: o que estamos fazendo com o fôlego que ainda nos foi confiado? Com os abraços que ainda podemos dar? Com a vida que, por enquanto, ainda insiste em nos chamar de volta?
Que Isabel descanse.
E que nós, finalmente, acordemos.
Rivelino Liberalino


